• Afonso Amorim, Gustavo Santos e Maria Miguel Monteiro 9º A

GRANDE ENTREVISTA

Atualizado: 7 de jul. de 2021

Ao fim de 20 anos como Diretora da Escola, a professora Maria das Dores Milhazes deixa o cargo para se aposentar.


FGNotícias: Bom dia, Drª Maria das Dores Milhazes.

É um prazer realizar esta entrevista. Agradecemos a oportunidade que nos dá de conhecermos melhor todo o trabalho que desenvolveu como Diretora em prol da Escola Dr. Flávio Gonçalves.

Ao longo de alguns anos, exerceu um cargo de grande responsabilidade e, como tal, gostaríamos de lhe colocar algumas questões para o jornal da nossa escola.

Diretora: Com certeza.


FGNotícias: Quantos anos exerceu funções nesta escola?

Diretora: Esta escola, não sei se vocês sabem, não esteve sempre nestas instalações. Começou por ser a Escola Preparatória da Póvoa de Varzim, metade a funcionar na Escola Secundária Eça de Queirós e a outra metade a funcionar na Escola Secundária Rocha Peixoto. A minha primeira colocação foi na Escola Preparatória da Póvoa de Varzim, na secção que funcionava na Escola Eça de Queirós. Esta escola começou a funcionar neste edifício em 1980 e eu entrei logo em 1981. Mas, fazendo bem as contas, no fundo, eu estive sempre a ela ligada, mesmo quando funcionava noutras instalações. Por isso, posso dizer que faço agora em outubro 45 anos de ensino, tirando o ano de estágio e os dois no outro espaço, estive aqui 42 anos.


FGNotícias: Quando tinha a nossa idade, já sonhava em ser professora e chegar a um cargo tão importante na vida profissional?

Diretora: Não, nunca quis ser professora! (risos)

Isto é para vocês verem, e até é bom que jovens como vocês se apercebam disso, que às vezes os nossos sonhos não vão ter nada a ver com a nossa realidade futura. Não quero dizer com isto que a gente não deva perseguir os sonhos!

Eu faço sempre isso, eu sonho muito e gosto de realizar muitos sonhos, mas muitas vezes a vida leva-nos para outros caminhos e nós, quando entramos noutro caminho, temos que continuar a procurar o sonho.

Eu licenciei-me em Farmácia porque o que eu queria era trabalhar em laboratórios. Gostava muito da área de análises clínicas e foi exatamente para isso que eu me licenciei. Aliás, o meu curso, na altura, até tinha mesmo o nome Química ou Farmacêutica Analista, por isso, a nossa especialidade era mesmo essa. Portanto, eu sempre pensei, quando acabei o liceu, em ir para Farmácia porque não queria ser professora, não queria ir para o ensino. A minha mãe ainda me pôs essa hipótese, mas eu disse: “Quero ir para um laboratório, trabalhar num laboratório. Eu gosto de reagentes, gosto de estar num laboratório, é isso que eu quero ser!” Mas, concluído o curso de Farmácia, havia várias hipóteses e, como as licenciaturas eram mais generalistas, eu podia seguir vários percursos. Depois de me licenciar em Coimbra, resolvi concorrer para ser professora e tive a sorte de ficar colocada na minha terra, na Póvoa de Varzim, no liceu que tinha frequentado, na secção da Escola Preparatória, e isso entusiasmou-me para aceitar a colocação.

No final do primeiro ano, tinha decidido: é isto que eu gosto, estava completamente enganada e ser professora é muito mais do que aquilo que eu imaginava. E daí, no ano seguinte, concorri logo, porque dantes o estágio profissional não estava incluído na licenciatura e, então, resolvi concorrer a estágio profissional para ser professora. Passados dois anos como professora, no terceiro ano, já estava a fazer o estágio e decidi logo que era esta a carreira que queria abraçar.

Tive várias propostas para ir para laboratórios, mas disse:

“Não, a minha profissão é ser professora, eu gosto muito e, por isso, vou continuar.” E porque é que eu gosto muito de ser professora? Porque é uma profissão que não tem rotina, todos os dias temos surpresas. As turmas são diferentes, os alunos são diferentes… Preparar uma aula para o 9ºA é muito diferente de preparar para o 9ºB, para o 9ºC…. É uma profissão que traz sempre atração, novidades, entusiasmo e isso era o que eu queria na minha vida!

FGNotícias: O que a motivou a desempenhar o cargo de Diretora?

Diretora: Para vos ser sincera, eu não tinha motivação nenhuma para exercer este cargo, nem nunca quis concorrer. Antigamente não era Diretor, era Presidente do Conselho Executivo, portanto nós concorríamos com uma lista, fazíamos eleições e, aliás, foi assim que eu fiquei nos destinos desta escola. Quando me falavam “Vai haver eleições” e me perguntavam se eu queria ser diretora, respondia: “Eu quero é dar aulas! Conselhos Executivos, burocracia, papéis não é comigo! Eu gosto de dar aulas!” E acreditem que eu gostava muito de dar aulas e hoje é muito gratificante quando encontro os meus antigos alunos e eles me dizem: “Professora, nós gostávamos tanto das suas aulas!”, mas as circunstâncias é que me levaram até à direção.

Esta escola ficou pequena para tantos alunos da Póvoa e, por isso, teve de se abrir a escola que, na altura, se chamava “Penalves”, hoje “Cego do Maio”, e não tive como dizer que não para fazer parte da Comissão Instaladora da Escola de Penalves. Eu estava a elogiar muito uma colega por ter aceitado o lugar, uma grande amiga minha, e ela disse: “Pois, eu aceitei muito feliz porque tu vais comigo!” e eu fiquei sem argumentos para dizer que não podia ir e fui para a Comissão Instaladora, mas disse sempre que só ficava dois anos, porque a minha paixão era esta escola! Tinha aqui as minhas amigas e toda a gente com quem trabalhei. A professora Manuela trabalhava comigo há muito tempo e nós tínhamos uma parceria impressionante porque, como tínhamos o mesmo tipo de serviço, normalmente apanhávamos as mesmas turmas.

Nós tínhamos aqui um grupo de danças e cantares e muitas atividades, quando ainda ninguém fazia nada na Póvoa esta escola já as realizava. Por isso, eu quis regressar à minha escola, e, quando cheguei aqui, a escola não tinha direção, não tinha Concelho Executivo, porque ninguém queria concorrer. Então, o Ministério da Educação, através da DREN, nomeou uma Comissão Provisória, mas apenas referia o seu presidente e este depois foi buscar os outros membros e, nesse contexto, convidou-me a mim para fazer parte.

Eu não queria, porque gostava de ser professora, mas não tinha razão para não aceitar! Se eu tinha feito parte de uma Comissão Instaladora, se a minha escola do coração estava com um problema por não ter direção, eu só podia aceitar.

No final desse ano, o colega que era o Presidente da Direção não quis continuar e, de certo modo, entusiasmou-nos muito para concorrer e concorri eu, a professora Manuela e o professor Maia. Mais tarde, a escola tornou-se num agrupamento, agruparam-se as escolas do 1º ciclo e do pré escolar e houve tantas mudanças que a Direção se manteve, embora não fosse, de todo, a minha motivação nem o meu objetivo presidir a escola.


FGNotícias: Enquanto foi Diretora, alguma vez pensou em desistir do cargo?

Diretora: Não, desistir do cargo de Diretora nunca pensei. Podem ter a certeza de que isto traz muitos sobressaltos e muitas aflições e, às vezes, a gente tem que dormir para tentar encontrar uma solução. É sempre assim que eu funciono.

Quando tenho um problema muito sério e tenho de o resolver, vou para casa, vou dormir e, no dia seguinte, acordo bem cedo e penso na solução. Tenho-me dado sempre bem com este procedimento. Este é um cargo que traz, de facto, problemas e situações com as quais não estamos a contar. Algum tipo de ocorrência com um aluno, uma situação com um encarregado de educação ou um professor pode surgir de repente, mas, mesmo assim, nunca pensei em desistir.

Sou uma pessoa que tem alegria em viver, gosta muito de viver, gosta muito de conviver, sou sempre positiva! Penso sempre: “Disto ninguém vai morrer, vamos encontrar uma solução” e, portanto, nunca houve nada que me fizesse sentir assim: “Não aguento mais, vou-me embora”. Pensava sempre que, na vida, tudo acaba por se resolver, que existe sempre uma saída.

Considero que as pessoas não devem estar muito tempo a ocupar o mesmo cargo, e, como tal, da última vez que me candidatei a este lugar, exatamente há três anos, pensei seriamente se devia continuar ou não. Não porque tivesse medo, apenas porque acabamos por entrar numa rotina e essas rotinas não nos trazem ideias novas, não nos trazem movimento. Uma escola precisa disso mesmo, tem que pulsar, tem que estar sempre em movimento. Mas, como me estavam a “acenar” com uma escola nova, com umas obras que iriam colocar a escola mais bonita, pensei: “Ouro sobre azul. Saio e deixo a escola linda”. Portanto, foi esse um dos motivos que me fez concorrer ao último mandato, mas, infelizmente, deixo uma escola um pouco aos buracos, apesar de não ser culpa minha (risos).


FGNotícias: No Concelho da Póvoa de Varzim é a única Diretora de escola do sexo feminino. Como é visto o seu trabalho pelos colegas das outras escolas?

Diretora: Há um respeito muito grande entre nós, os diretores. Como sabem, existem muitos que já estão até há mais anos do que eu no cargo, o Diretor da Eça de Queirós e o Diretor da Rocha Peixoto, e posso dizer-vos que somos todos muito cooperantes. Se eu tenho uma dúvida ou se eles têm uma dúvida, entre todos, incluindo os outros colegas que estão há menos tempo nos restantes agrupamentos de escolas, procuramos entreajudar-nos. Para além disso, tratam-me com muito carinho e é muito engraçado que, sempre que chego, eles dizem: “Chegou a Diretora mais bonita e mais elegante do Concelho da Póvoa de Varzim”, gostam de brincar com isso. Eu fui avó muito cedo, por exemplo, a minha neta mais velha nasceu quando eu tinha 46 ou 47 anos e, durante muito tempo, eles brincavam muito comigo pelo facto de ser avó: “Chegou a avó”, diziam.

Trataram-me sempre com muito carinho e respeito, não noto que haja qualquer discriminação pelo facto de eu ser a única mulher, pelo contrário, tratam-me de uma maneira muito carinhosa.

Algo que é muito bonito é a colaboração que estabelecemos uns com os outros quando alguém tem uma dúvida. Há um espírito de entreajuda muito grande entre todos os elementos das direções das escolas da Póvoa e até mesmo de Vila do Conde, porque nós temos uma Comissão Pedagógica do Centro de Formação de Professores, onde se inclui a Póvoa e Vila do Conde. Existe um espírito muito bom entre todos os diretores das escolas que fazem parte dessa Comissão Pedagógica.


FGNotícias: Como conciliou o papel de Diretora com a vida pessoal? Considera que ambas ficaram a ganhar?

Diretora: Sim, ambas ficaram a ganhar. Aqui na escola, dediquei o máximo de tempo possível, também porque podia. Já tinha os meus três filhos crescidos, já se movimentavam sozinhos…Claro que estive sempre no papel de mãe e ainda hoje, lá pelo facto de ter um filho com 43 anos não deixa de ser meu filho, não deixo de estar preocupada e ajudá-lo quando ele precisa, a ele ou os seus filhos. Já tenho uma neta mais velha do que vós (risos), portanto, é uma coisa que nunca se deixa de ser, mãe, e eu sempre estive preocupada com eles. Eles também foram compreendendo sempre muito bem esta minha posição de Diretora.

A quem também tenho de agradecer muito é ao meu marido, que até a brincar dizia: “Tens um lugar divinal. Sabemos a que horas entras, mas só Deus sabe a que horas sais”, porque eu nunca tinha uma hora definida para chegar a casa.

Claro que, com isso, dei sempre o máximo aqui na escola, aquilo que podia e o que não podia, sempre disponível, estive sempre presente. No entanto, reconheço que, na minha casa, muitas vezes cheguei tarde, cozinhei à pressa, fiz as coisas à pressa, portanto, por vezes, tive pouco tempo para me dedicar à minha casa. Isso eu reconheço. Mas, o meu marido sabia que eu estava a fazer o que gostava muito, que a educação é a minha paixão, e os meus filhos sempre me incentivaram e têm orgulho no local onde estive e o tempo que aqui passei. Tudo isto acaba por ter sido gratificante e uma das coisas que me disseram quando pedi a aposentação foi: “Nós os três aprendemos muito pelo facto de teres sido professora e diretora”. Por isso, acho que ninguém saiu a perder.


FGNotícias: Já falámos sobre este tema, mas quando tomou posse neste último mandato disse em tom engraçado: “Vou assistir ao querido mudei a escola”. Qual é o seu verdadeiro sentimento ao deixar a Escola com este objetivo por concretizar?

Diretora: Uma tristeza enorme. Foi uma das decisões para concorrer ao último mandato e agora, quando olho para a minha escola e a vejo transformada em colunas por acabar e buracos, é uma sensação muito grande de frustração. Sei que ninguém tem culpa, a escola não tem culpa, as pessoas que contrataram a empresa não têm culpa, são coisas que acontecem. Há uma tristeza muito grande e, ainda por cima, alguns alunos esperavam ainda frequentar uma escola arranjada e vão embora, como é o vosso caso, sem estarem concluídas as obras. Eu espero que ainda a consigam ver um bocadinho mais bonita. Eu vou sair com uma imagem muito feia e, neste momento, temos de reconhecer que dá tristeza olhar para o lado de lá da rede e ver em que estado é que a escola está. Também sabemos que há uma parte muito burocrática que atrasa muito o início das obras.

Portanto, digo-vos que me dói a alma olhar para ali, para aquele lado, e ver que a renovação da nossa escola não evolui, pelo que é uma dor muito grande.

FGNotícias: A Diretora teve um papel integrador da comunidade com a participação dos pais. Qual o balanço que faz dessa colaboração?

Diretora: Faço um balanço positivo. Não tenho a menor ideia de que, quando eu comecei há 45 anos, a maior parte dos pais não vinha à escola porque estava convencida que se viesse era para ouvir queixas dos filhos. A maior parte dos pais não passava pela escola, a dado momento começou a haver uma maior participação dos encarregados de educação nas escolas e, de facto, essa participação tem aumentado e tem vindo cada vez a progredir mais ao longo do tempo. Eu entendo que é muito importante porque a escola, sozinha, não faz milagres. Os pais têm de ser uma boa retaguarda e ajudar os filhos no seu percurso escolar. As maiores dificuldades que encontramos aqui na escola referem-se àqueles meninos que, muitas vezes, estão aqui por sua conta e risco, porque não têm essa mesma retaguarda. Portanto, a participação dos pais na escola é muito importante porque, como eu costumo dizer, a participação passa sempre pelos mesmos. Eu encontro sempre os mesmos pais a ajudar e a participar e outros que só vêm a escola para pedir, não vêm trazer nada e nós aqui temos que dar. Os pais têm que dar, nós temos que dar e, só assim, é que pode haver uma maior colaboração. Claro que é muito importante esta colaboração e cada vez é maior desde que eu comecei a trabalhar, há 45 anos.

Os pais têm de pensar que a escola está para ajudar e não para complicar e também que a devem ajudar não complicando. Portanto, tem de haver uma colaboração recíproca e não atribuir as culpas para um lado ou para outro porque as responsabilidades são comuns e todos temos de caminhar com o mesmo objetivo.

FGNotícias: Tem orgulho nos alunos desta escola?

Diretora: Imenso. Nem imaginam o orgulho que eu tenho quando vou saber as notas que vocês têm no 10º ano. A maior parte dos alunos desta escola vai para a Eça de Queiroz e eu estou sempre a acompanhar o vosso percurso e tenho um orgulho muito grande ao ver que vocês continuam ou são melhores alunos do que eram aqui. Isso enche-me de orgulho e, como já passaram por aqui muitas gerações, fico muito contente quando chego ao hospital, ao consultório, a qualquer sitio e me dizem que foram alunos da minha escola e que gostaram muito de lá estudar. Constato que as pessoas tiveram um percurso muito feliz e realizado.

Eu tenho um filho e uma nora que são professores no Ensino Superior e encontram muitos alunos vindos daqui, da Póvoa de Varzim. Perguntam-me se eu me lembro desses nomes porque foram alunos da minha escola. Depois de consultar os registos que tenho na escola, confirmo que, pelo que eles me dizem, continuam a ser muito bons e eu fico cheia de orgulho. Outros, pelo apelido, perguntam-lhe se o professor é mesmo o meu filho e ele diz que sim. Eles dizem-lhe que andaram na escola da sua mãe e gostaram muito. Eu fico toda orgulhosa, porque normalmente os muito bons aqui são muito bons em qualquer lado, isso mostra que o nosso ensino é de qualidade e eu fico tão contente, como se vocês fossem meus filhos.

As vitórias dos nossos alunos são as nossas vitórias.

FGNotícias: Drª Maria das Dores Milhazes muito obrigado por nos ter concedido esta entrevista e por se ter entregado de corpo e alma à Escola Dr. Flávio Gonçalves, tornando-a um exemplo a nível nacional.

Diretora: Muito obrigado por ter tido a oportunidade de falar um pouco convosco, sei que são alunos de uma turma muito dedicada. E, por isso mesmo, espero que daqui a uns anos possa ver onde é que estes alunos chegaram, que espero seja muito longe. É uma maneira de levar a nossa escola sempre para o lugar onde pertence, que é o de excelência, e ver também os vossos sonhos realizados. Espero ver-vos bem lá no topo!



Afonso Amorim, Gustavo Santos e

Maria Miguel Monteiro 9º A




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